segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Capítulo 6 “(Me) Pegar ou largar” 2ª Parte


Ficamos sentados na escada por mais ou menos umas duas horas depois disso. Eu realmente queria ficar ali. Parado no tempo, minha mente tinha clareado e eu comecei a pensar que tinha exagerado com o Greg. Aquele comandante deve ser muito estúpido mesmo para ter engolido essa história de primos, ou, quem sabe, ele deve ser uma pessoa muito boa, ter percebido tudo e ter se deixado enganar para não causar nenhum constrangimento para o Gregório.  De qualquer forma, criei uma simpatia pelo comandante Fúlvio.
Depois de um tempo essa ideia de tão ridícula ficou cômica. Eu acabei soltando uma risadinha. Coloquei a cabeça entre os joelhos e comecei a dar risada. Greg achou que eu estava chorando:
― O que foi?
―Eu estou rindo.
―Do que?
― Dessa situação toda. Tem ideia o quão é estúpido você dizer que eu sou seu primo? Nós nem somos parecidos.
―E eu nem tenho tios pra ter primos ― Ele deu uma risadinha nervosa.
― Eu exagerei. 
―Não, você não exagerou. Você só estava sendo você mesmo.
―Meu lindo. ― Dei um beijo longo nele e ele se debruçou sobre mim na escada e começamos a nos pegar ali mesmo.
― Sabe que eu nunca beijei um primo meu. E olha que eu tenho uns lindinhos.
―Melhores do que eu?
―Não. Você é único.
―Sabe uma coisa que me contaram um dia?
―O que?
―Amor de primo é pra sempre. ―Eu comecei a rir.
― E sabe o que me falaram sobre isso?
―O que?
―Transar com primo é igual beber vodca barata.
―Por quê?
―Porque quando você faz. Não conta pra ninguém. E possivelmente no outro dia você terá uma dor de cabeça terrível.
Nós dois começamos a rir. Greg começou a falar com a voz mole “Ainda bem que você não é meu primo” e começou a tirar minha camiseta suada. Eu fui mais rápido e tirei a bermuda dele com os pés (pequeno truque eu conheço). Ele usava uma das cuecas que eu tinha comprado.  Beijei-o no pescoço e a barba dele me espetava.
Ia acontecer lá na escadaria mesmo. Mas escutamos a porta abrir e a voz debochada de certa ruivinha começou a ecoar pelas paredes:
―Meus senhores! Os senhores estão numa casa com três quartos. Façam isso em um deles.
Greg saiu de cima de mim e sentou de pernas cruzadas na escadaria. O coitado não sabia onde esconder a cara. Eu taquei minha camiseta na Peggy:
―Se não quisesse ver nada, batesse na porta pra entrar!
―Meus senhores, que baixaria, eu achei que estaria entre homens de classe.
―Vai para de graça. Fala logo o que você veio fazer aqui sua perdida.
―Olha esse aí. Até colocou uma lanterna na cueca ―Agora o Greg evaporava de vergonha.
―Eu... Vou tomar um banho... ―Greg ergueu a bermuda e saiu correndo para o banheiro.
―Banho... Sei... Téo eu vim pegar aqueles filmes que você me prometeu. E, além disso, eu tenho umas novidades bacanas pra contar, mas vamos esperar o Greg terminar o “banho” dele.
―Ok, está tudo no meu notebook. Vamos lá ao quarto que eu passo pra você. Trouxe Pen Drive?
―Oito gigas. Serve?
―Serve.
Peguei a Peggy pela mão e a levei para o meu quarto. Chegando lá eu encostei a porta e liguei uma música baixinha. Enquanto eu transferia os filmes para o seu pen drive, contei tudo que aconteceu no parque. Acabei desabafando sobre o comportamento do Gregório. Ela como sempre ouviu pacientemente:
―Eu não tiro a sua razão. Mas posso te perguntar uma coisa? Se ele tivesse te chamado de qualquer outra coisa, você teria ficado ressentido?
―Pra ser sincero, eu acho que se ele tivesse me chamado de amigo ou colega de quarto eu teria ficado menos nervoso, mas ainda sim descontente. Sabe... Eu realmente gosto do Greg, mas dentro de casa é uma pessoa, fora ele é outra. Ele me trata como o “bróder” dele na rua, daqui a pouco ele me pede pra “tocar aqui”.
Peggy deu uma risada. Era uma situação cômica falando a verdade. Mas eu não gostava disso. Uma vez dormi com um cara que me chamou de “mano” durante o sexo. Nunca mais liguei para ele. Não que ele fosse uma pessoa ruim, mas “mano”? Não se chama alguém que você se deita disso. Greg ainda não me chamou disso, mas ele estava me tratando como um amigo fora de casa e um namorado dentro. Eu quero ser o namorado dele em qualquer lugar. No fundo é isso que eu queria:
―Dê mais tempo pra ele. É a primeira vez que ele namora, acho que ele não sabe como lidar ainda. Fora isso não se esquece de que ele é completamente fechado com estranhos. Não é da personalidade dele andar de mãos dadas ou te colocar no colo. Mas... Eu creio que com o tempo ele vá sim ser mais seu namorado e menos seu “bróder”.
―Assim espero.
―Relaxa viado, vai dar tudo certo.
―Tomara travesti.

Peggy foleava minha anotações, enquanto eu transferia os filmes. Ela conhecia o Greg como ninguém. Era a única pessoa em que ele confiava:
―Peggy, quantas pessoas sabem que e o Greg é gay?
―Ele não é exatamente gay sabe. Como eu te disse, eu já o vi como homens e mulheres.
―Bissexual, que seja. Quantas pessoas sabem?
―Bom, ele já ficou com alguns amigos meus. Às vezes ele ficava com uns rapazes no Peggy’s então alguns fregueses mais comuns de lá sabem. Como eu te disse antes, não era raro encontrar vestígios de outras pessoas nessa casa. Mas eu já encontrei cuecas de um tamanho diferente até um Sutiã. No fundo acho que ele só recompensava as pessoas que lhe davam atenção. Sabe os pais dele viviam naquela loja, o Greg ficava sozinho em casa o dia inteiro. E, logo quando entramos no colegial, ele era muito feinho, da pra imaginar que ele tinha barba desde os 14 anos?
―Sério?
―Sério. Ele era magrelinho e tinha barbinha e era bem alto já. Então acho que quando ele cresceu mais um pouquinho que ele finalmente encorpou, ele passou a “recompensar” as pessoas que demonstravam interesse. Claro que é como eu te disse. Ele vivia se machucando com isso.
Peggy tratava o Greg como alguém a ser protegido. O eterno lobo solitário. Claro que eu pude me identificar um pouco. Os longos jantares em que eu, meus pais e meu irmão comíamos uma refeição inteira sem trocar uma palavra. Meu irmão sempre me tratando como um inferior, muitas vezes pelo simples fato de eu não querer ir a uma festinha de estudantes. Meus pais me olhavam com condescendência. “Pobre Téozinho, não consegue se enturmar com o resto da turma, será que deveríamos procurar um psicólogo?”, “É só uma fase, logo passa”. Mas a fase nunca passou. De fato eu me esqueci dos meus colegas de escola muito rápido. Até que em uma bela festa da faculdade, um rapaz troncudo, sorriso largo, olhos escuros como a noite chegou para mim e disse: “Nossa como você é gato.” Eu perdi minha fala por alguns segundos. Senti um calor no peito, mas nunca tinha me interessado por nenhum rapaz antes. Eu apenas soltei a primeira frase de agradecimento que me veio à cabeça.  “Fico lisonjeado”. Ele deu uma risada longa, me pegou pelo braço e me apresentou para seus amigos. Não preciso dizer que esse rapaz era o Gio. Mas quando ele me apresentou para aquelas pessoas, eu finalmente consegui aquilo que Peggy chamava de “Crianças da Cidade Velha”. Um grupo de desajustados e problemáticos que não se misturavam com ninguém, mas que no fundo se amavam e se respeitavam.
Talvez eu, Peggy, Greg, Gio e as demais crianças da cidade velha não passassem de um bando de nerds, problemáticos, desajustados, gays, e antissociais. Mas quando estávamos juntos em nosso mundo fechado vivíamos num paraíso. Seja no barzinho da esquina da faculdade, em nossos apartamentos ou no velho mirante de Santa Clara. Eu fiquei pensando nisso por algum tempo. Pensei em todas as vezes que, assim como Greg, fiquei com pessoas só para não ficar sozinho. E como isso machuca muito. Tudo que eu menos quero é machucar o Gregório. Mas não quero que ele me machuque.
Já estava quase terminando de transferir os filmes quando bateram na porta do meu quarto. Era o Gregório de cabelo molhado cheirando a banho recém-tomado. Ele entrou e se sentou ao lado da Peggy na cama. Começou a fuçar entre meus livros e rascunhos até encontrar uma cópia do Violeta. De fato era a cópia dele que estava no escritório, mas que eu inconscientemente coloquei no meio das minhas coisas:
―Seu livro?
―É.
―Se importa se eu ler?
―Não.
Peggy estava mais interessada na minha edição americana de Scott Pilgrim. Eu havia terminado de transferir todos os arquivos:
 ―Pensa rápido ― Taquei o pen drive para Peggy que o pegou no ar.
―É você nessa foto? ―Greg apontou para a foto da minha biografia na orelha da contracapa.
―Pois é. Melhorei um pouco não acha.
―Você está com muito cara de jovenzinho nessa foto.
―Meu não avacalha.
―Ai deixa eu ver, deixa eu ver. ―Peggy pulava na cama como uma criança.
Os dois davam risada da minha foto, o que me levou a tomar o livro do Greg e coloca-lo em uma gaveta na escrivaninha. Joguei o corpo para traz e me afundei na cadeira da escrivaninha. Greg era realmente outra pessoa quando estava entre amigos. Queria que ele fosse assim sempre.
―Bom. Como eu disse, eu estou com duas novidades das boas. ―Peggy ficou de pé na minha cama fazendo pose como se estivesse no palco. ―Primeiro: Daqui a dois sábados eu farei uma noite do microfone aberto no Peggy’s.
― Uhul! Bravo! ―Greg aplaudiu.
―Mas que porra é essa?
―É uma noite onde qualquer um pode se apresentar, por cinco minutos, no palco do Peggy’s. Seja contando piadas, cantando, dançando e teve uma vez que até uma mina fez strip-tease. Se por acaso a pessoa for muito ruim. Eu de lá do balcão, disparo uma sirene. É muito comédia.
― E quem manda bem ganha uma cerveja. ―Completou Greg.
―Essa é a noite que mais dá trabalho, e eu só faço isso umas duas vezes por ano. Eu geralmente chamo mais umas duas pessoas pra me ajudar. E até o Greg entra na dança.
―Então você veio aqui pra pedir nossa mão de obra né sua mafiosa. ― Taquei uma almofada na Peggy.
―Claro que não e isso tem a ver com minha segunda novidade. Gregório seu pervertido advinha quem está voltando para Santa Clara e dessa vez para ficar!
―Quem?
―O Argentino!
―Ah! Não brinca! O Ramón vai voltar pra Santa Clara?
―Quem é esse? ―Eu apenas boiando. Greg se levantou e me abraçou por trás, colocou o rosto no meu ombro e disse:
―O namorado da Peggy.
Eu fiz uma cara de susto, nunca tinha me passado pela cabeça que Peggy tivesse um namorado. De fato, Greg era reservado, mas Peggy conseguia ser muito mais reservada que ele:
―Como assim você tem um namorado e você não me conta?
―Você nunca perguntou ué.
―Mas agora você conta essa história direito.
―Bom como começar. Lembra que eu te contei sobre as crianças da cidade velha. Bem o Ramón era filho de um casal de artesãos argentinos que se mudaram para cá e vendiam peças pras boutiques de toda a região. Quando ele se mudou para cá não falava uma palavra em português, ai ninguém queria fazer amizade com ele. Daí ele se juntou com a gente. Nós tomávamos vinho de garrafão no mirante e quando fizemos 15 anos ele me pediu em namoro. Eu aceitei. Mas quando terminamos o colégio, os pais dele tiveram que voltar pra Buenos Aires e ele foi junto, tentar fazer faculdade. Nós tentamos levar um namoro à distância, mas na época não deu muito certo. Então decidimos que rolaria um namoro aberto. Eu fico com quem eu quero, Ele fica com quem ele quer, mas quando estamos na mesma cidade nós só ficamos um com o outro.
―E isso funciona?
―Não muito. Não vou pra cama com ninguém há dois anos.
―E você acha que ele não foi com pelo menos outras 10 nesse período? ― Gregório mostrando seu lado Bitch. ―Ele é um rapaz bem afeiçoado.
―Greg você pode chamar um cara de bonito se você quiser. Eu não me importo coração. ―Dei um tapinha leve no ombro do Greg que deu uma risadinha de cumplicidade.
―É eu sei, mas eu não consigo ir pra cama com nenhum outro cara e não ver a cara de cachorro recém-caído do caminhão de mudança dele. ― Peggy abraçou a almofada e rolou pela cama e depois tacou a almofada em mim.
―Ok. E quando é que ele chega?
―Semana que vem.  Ao que tudo indica ele vai dar aula de violão no Instituto de artes de Santa Clara.
―Ele conseguiu entrar no instituto? Nossa que legal.
―O que diabos é o instituto?
―É como se fosse uma escola de artes, eles ensinam música, canto, pintura, escultura, dança, desenho e tudo mais.
―É mantido pelas irmãs e é uma escola conceituadíssima. ―Greg como sempre completando.
―Bom, que sorte a sua hein Peggy. Não tem nada pior do que a pessoa que a gente gosta estar longe. ―Não tive como não me identificar.  Eu sei que Buenos Aires pode ser atingida de carro ou ônibus, mas com certeza era a mesma coisa que o Gio em algum lugar da Itália. ― Por sorte a pessoa que eu gosto está bem aqui nesse quarto. ― Prendi a cabeça do Greg com meu braço e dei um cascudo nele. Ele respondeu me dando uma chave de braço ―Para... Machucando...
Ele me soltou e eu o joguei na cama:
―Meus senhores. Tem uma dama nesse quarto!
―Quer brincar também? ―Taquei outra almofada na Peggy.
―Menage? Hoje não.
―Ah, mas eu vou te pegar. ― Greg agarrou Peggy e começou a fazer Cócegas na costela dela.
Eu abracei os dois e caímos os três na cama. Eu dei um beijo no rosto da Peggy e um Selinho no Greg. Ele deu um beijo na Testa da Peggy e me devolveu o selinho. Peggy mais ousada nos deu um selinho em cada um. Ela se levantou e caminhou até a porta:
―Hoje eu vou ver uns filmes. Amanhã eu começo a cuidar dos preparativos para a noite do microfone aberto. Eu vou precisar de um estoque reserva. Vocês poderiam me ajudar pegando umas bebidas na cidade nova né?
―Como quiser. ― Respondeu Greg.
―Ótimo. Eu te empresto a caminhonete.
―Você tem uma caminhonete?
―Téo, você não sabe nada sobre minha pessoa mesmo hein. Até mais garotos. Vou deixar vocês Dor-mi-rem...
Ela saiu falando a palavra “Dormirem” cada vez mais baixo pelo corredor. De fato não dormimos aquela noite.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Capítulo 6 “(Me) Pegar ou largar” - Parte 1


Uma coisa sobre a carência sentimental crônica: Você não pode receber um pouco de atenção, que passa a ser um viciado nela. Você quer cada vez mais atenção, carinho, demonstrações de afeto. Isso chega a ser assustador.  Eu me lembro de quando tive meu primeiro caso de uma noite. Ele gozou, eu não. Segurei a mão dele como se não quisesse que ele fosse embora, mesmo tendo sido uma péssima noite. Ele se foi, mas ele gostou e me deu o telefone. Pelo menos tive a sabedoria de não entregar o meu a ele.  Nunca mais nos vimos. Eu deveria odiá-lo, mas acabei superando.
Sou uma pessoa carente e eternamente excitada. Em 90% dos casos isso ferra com a minha vida. Meus últimos casos longos (como eu os chamo) duraram aproximadamente duas a três semanas. Envolviam primeiros encontros, junto com primeiros beijos e primeiras noites acontecendo em um espaço de dias, às vezes, horas.  Eu realmente tenho mania de apressar as coisas e por muitas vezes isso é o que acaba estragando tudo. Eu crio demônios que só existem na minha cabeça, coloco barreiras e ainda por cima, faço tudo que não deveria fazer. Talvez seja isso que me atrapalhou tanto.

Quando paro pra pensar só tive dois casos que ultrapassaram a barreira do primeiro mês. Aí sim eu começo a chamar de namoro. Os dois eu já contei aqui. Mas...ambos foram tão diferentes que seria covardia compará-los. Com o Gio as coisas aconteciam muito depressa. Com o Greg tudo acontecia com preparação e aos poucos, sempre um passo de cada vez.
No dia seguinte a nossa primeira noite no terraço do Skykeeper, Greg tinha que fazer a ronda na cidade. Então eu aproveitei para contar nossa noite para a Peggy:
―Vocês treparam no terraço do Skykeeper? Ok. Muita inveja de vocês. Você não sabe como é concorrido aquele restaurante? É o lugar mais bem frequentado da cidade!
―Não é pra tanto vai. A vista era bacana, eu fiquei com muito frio. E ele disse que me ama.
― Oi?
― Ele disse que me ama.
― E você?
―Dei pra ele.
Peggy estava de boca aberta. Eu me sentia uma pessoa vazia e malvada. Como se eu tivesse usando o Greg, mas no final ela deu de ombros e sentou numa cadeira cruzando as pernas e acendendo um cigarro:
― Você o ama, Téo? Eu prometo que não vou julgar.
― Não sei se eu o amo. O que eu sei é que eu gosto de passar o tempo com ele, sinto falta dele e às vezes me pego pensando nele bastante.
―Isso é meio que amor.
―Eu não sei. Ele disse isso, mas durante o jantar ele parecia tão distante. E aí quando estávamos no terraço ele me disse “Eu não sei ser íntimo de alguém quando estou em público”. Eu não quero ser um daqueles caras que posam de melhor amigo ao lado do namorado.
― E você disse isso pra ele?
― Claro que não. Não o quero entrando em parafuso e nem desconfortável. Imagina. É que Peggy, quando eu fico com alguém eu quero essa pessoa por completo sabe. Ele não me deixou sequer pegar na mão dele no restaurante.
― É o jeito dele.
― Mas...
Eu me lembrei de uma história que havia acontecido mais ou menos quando eu completei meu primeiro mês de namoro com o Giordano.
Estávamos nós dois em Curitiba. Em pleno inverno. Eu sabia da fama da cidade ser gelada, mas eu não sabia que ela era tão gelada assim. Eu tinha levado apenas uma camiseta de flanela de manga longa. Era um daqueles simpósios da faculdade, escapamos das palestras e fomos dar uma volta pelo jardim botânico de Curitiba. Deveria estar menos de dez graus. Por mais que andasse eu não me aquecia, então Gio me abraçou me levou até um café e me comprou um cappuccino. Nós nos sentamos em um banco onde ele me fez colocar as pernas em seu colo. Enquanto dividíamos o cappuccino ele nos enrolou em seu cachecol e me deu seu gorro.  A cena estava bem fofa até que ele avistou um casal de idosos nos encarando. Eu só me lembro dele virando pra velhinha e dizendo “Sim, ele é meu homem e ele ainda tem ereção”. Ela se benzeu e saiu rápido de lá. Eu apenas dava risada. Acho que no fundo o que eu queria do Gregório é que ele realmente se entregasse de uma forma aberta. Que ele mandasse o mundo à merda. Eu sei que pessoas são diferentes. Possuem dinâmicas diferentes, mas como eu faço? Eu sou tão ruim assim? Acho que no fundo eu sou.
― Você tem razão Peggy, é o jeito dele. Ele é tímido e reservado, eu deveria parar de cobrar demonstrações públicas de afeto.
― Então acho que você não tem do que se preocupar.
Peggy tinha razão, pra variar. De certa forma eu estava projetando o Gio sobre o Greg, isso não era certo. Desde o momento em que comecei a comparar Greg ao Gio eu tenho me frustrado. É melhor deixar isso de lado. Enterrar o Gio seja lá onde ele estiver e viver o Greg.
― Bom, me deixa ir, prometi ao Greg que estaria em casa na hora do almoço pra ajuda-lo a trocar o pé da geladeira.
― Sei... Aposto que você vai ajudar ele a trocar outra coisa depois.
― Meu, para de ser tão obscena! ―Ela ergueu uma sobrancelha ― É logico que eu vou ajudar ele a trocar várias outras coisas depois.

― Em três... dois... um... ― Greg dava as ordens e eu ajudava a erguer o eletrodoméstico.
― Deus do céu, você não pode comprar uma geladeira nova que não use pezinhos?
― Poder eu posso, mas só vou quando essa aqui gelar sua ultima cerveja.
― Então rosqueia essa meleca rápido que a geladeira está escorregando...
Tarde demais. A porta se abriu, uma das prateleiras escorregou derramando toda a sorte de comidas e bebidas no chão. Greg foi atingido pela garrafa de água ficando todo ensopado. Eu só tive tempo de colocar a geladeira novamente no lugar e esticar um guardanapo para ele.
― Pelo menos hoje está bem quente. Vou ter que tomar um banho antes de voltar para o trabalho.
― Vai lá. Eu vou dar um jeito nessa bagunça.
Ele me deu um selinho e correu para o banheiro. Eu comecei a juntar os cacos. Dentro de casa ele era sempre assim: fofo, gentil e doce. Estávamos juntos a mais ou menos um mês e quinze dias. E já somos um casal.
Ele voltou com o uniforme trocado e cabelo molhado, mesmo sorriso. Como eu poderia duvidar desse homem tão honesto e bom comigo? Eu sou um monstro. Ok, menos drama, mais ação. Acho que vou preparar alguma coisa para hoje, só pra mostrar o quanto sou grato por tudo que ele fez por mim.
As horas passaram e eu fiquei olhando o ponto de inserção no editor de texto sem conseguir escrever nada de útil. Quando olhei já eram mais de sete da noite e Greg tinha acabado de bater a porta da frente. Cansado demais pra sair e eu frustrado demais pra cozinhar.
Vamos fazer isso outro dia. Bom eu preciso ir à cidade. Minhas roupas íntimas que vieram comigo para Santa Clara já estavam bem usadas. E se eu olhar as do Greg. Bem... Não estavam em melhor situação. Ele também precisa de meias. E pelo menos uma camiseta básica nova. Quem será que cuidava disso antes? Será que era a Peggy? Bom, melhor não pensar. Fazer compras com a Vespa é terrível. Fui de ônibus até a cidade nova. Na volta ele atrasou. Cheguei em casa e já estava escuro, Greg estava vendo televisão. E eu morto.
Nesse ritmo o mês seguinte passou. Era raro fazermos algo doméstico juntos. Como pagar contas ou irmos ao mercado. Eu sempre fazia algo assim enquanto ele estava no trabalho. Geralmente na volta da biblioteca ou do parque. Eu já estava em Santa Clara há quase três meses e nada de uma nova história. Nada de inspiração.
O tempo passava. Eu já estava com vergonha de abrir meu e-mail antigo e encontrar pelo menos uma centena de mensagens desesperadas do Sidney perguntado do novo livro. A essa altura a editora já deve ter desistido. Cancelado o contrato. Era questão de tempo até me localizarem e a editora me fazer pagar alguma multa por quebra de contrato. Eu provavelmente teria que vender o apartamento que comprei com a primeira edição do Violeta. Não era grande coisa. Mas eu poderia viver aqui com o Greg.
Eu tenho que ajudar o Greg de verdade. Pegar alguns trabalhos de faculdade para corrigir não é má ideia. Isso serviu pra que eu enrolasse por mais um mês. Pelo menos deu pra pagar o aluguel do quarto. Mas se eu fosse mudar minha vida para Santa Clara de vez, só isso não bastaria.
Eu já estava entrando no quinto mês em Santa Clara. Greg e eu estávamos bem. Era uma lua de mel. Mas ele estava preocupado comigo. Eu praticamente não saia de casa, quando saía, ia para a biblioteca e voltava cheio de livros. Eu lia até três romances por semana, mas sem inspiração. Até em um dia, meus dedos tamborilavam sobre o teclado. Greg colocou suas mãos sobre as minhas e disse “Chega, vamos sair”. Ele estava certo. Eu o beijei e seguimos para um parque próximo da cidade velha.

O dia estava realmente quente. Greg estava de regata, mas como eu sou um idiota, sai de casa com jeans e camiseta escura.  O Parque estava lotado de pessoas, casais com filhos, crianças com cães. Alguns adolescentes bebiam vodca disfarçada em uma garrafa de refrigerante. Um outro casal se beijava no meio das árvores. Eu só queria um banco sossegado pra fugir do calor.
Havia uma clareira no final do parque com um banco bem reservado, eu apontei para ele e disse que me sentaria lá. Greg se sentou ao meu lado. Não exatamente ao meu lado, Ele se sentou no extremo oposto do banco. Pelo menos duas pessoas poderiam sentar entre a gente.  Ele se sentou de pernas aberta e cabeça baixa. Eu abri os braços e estiquei uma das pernas sobre o lugar vago. Eu preferia que fosse sobre o colo dele. Mas... Tudo bem... Vamos respeitar os modos dele:
―Você está bem?
―Só estou com um pouco de calor agora.
―Não... Eu estou falando do seu livro.
―Se é por isso... Eu não estou bem.
Eu contei ao Greg tudo que me fez fugir pra Santa Clara. Contei do sucesso do meu livro, contei pra ele que meu agente literário vendeu um segundo livro pra editora e que eu não estava conseguindo nem pensar em um enredo para esse livro. Contei que provavelmente eu teria que pagar uma multa imensa, perderia a minha casa, perderia minha credibilidade com as editoras e que caso conseguisse escrever outro livro um dia, ele não seria publicado. Quando eu terminei de contar, eu estava quase chorando. Eu esperava um abraço, uma mão no ombro, alguma palavra de conforto, mas ao invés disso ele continuou imóvel, olhando para o chão. E quando ele percebeu que eu tinha terminado de falar, apenas disse:
― Você vai superar. Eu sei que vai.
― Tomara. ― Acho que disfarcei o descontentamento com a reação dele. Porque não houve nenhuma mudança na atitude.
Eu apenas me encostei no banco aproveitando uma brisa fresca que fazia o suor evaporar da minha camiseta. Aquele era o jeito do Greg, afinal. Um amor em casa, um romântico na cama e um cara completamente distante quando estava em público.  Ele estava sentado a exatos dois lugares. Nem sequer olhava pra mim. Eu estava odiando essa situação, mas estava calor demais pra sair dali. Vi um carrinho de sorvete mais adiante. Reparei que ele olhou para o carrinho. Tentei uma cartada de reclamar do calor só para ver se eu conseguia fazer ele dividir um sorvete. Tudo que ele fez foi concordar comigo.
Eu já estava cansado dessa situação. Estava decidido a ir embora, torrar minhas ultimas economias em um ar-condicionado e ficar no quarto olhando pra tela do computador.  Quando eu reparei em um Guarda Civil se aproximando do nosso banco com um sorriso largo. Ele deveria ter idade pra ser meu pai. Provavelmente era um dos colegas do Gregório:
― Aproveitando a folga não é Jefferson?
― Sim senhor. Fugindo um pouco do calor que está fazendo.
Greg se levantou e aquele senhor lhe deu um aperto de mão e um tapinha no ombro.  Por instinto eu também me levante e esperei por alguns segundos até ser apresentado.
―Comandante esse é meu… primo, Theodoro. Ele é um escritor e está pegando inspiração em Santa Clara para um romance.
―Não me diga. E você escreve o que rapaz?
―Eu tenho um romance policial publicado pela Martins & Souza Afonso chamado Violeta. Atualmente estou trabalhando no meu segundo livro.
― Meu deus, mas tão moço! Se me permite a indiscrição… Qual é a sua idade?
― Faço 25 no próximo mês.
― Sua família está fervendo com jovens promissores Gregório, eu quero que saiba que estou pensando seriamente em te nomear como responsável por toda a área da cidade velha, não temos muitos problemas nessa região e blá blá blá....
Eu realmente parei de escutar quando a conversa se dirigiu apenas ao Greg. Ele me chamou de primo. Se ele tivesse dito que eu era um amigo dele, um turista, ou qualquer coisa. Mas primo! Primo é foda.  Eu não escutava nada, não via nada... Eu canalizava minha raiva em um sorriso falso nos lábios. “Sim, ele é meu homem e ele ainda tem ereção”... “Comandante esse é meu… primo”... O frio de Curitiba e o calor de Santa Clara iriam se transformar em uma tempestade na minha cabeça a qualquer momento. Com direito a destelhar várias casas e ainda por cima alagar várias avenidas importantes. Eu não conseguia respirar direito, minha visão estava trêmula. “Vou comprar um Cappuccino pra ver se você esquenta. Será que eles fazem com conhaque?”... “É está quente mesmo”... “Coloca suas pernas aqui pra ver se você se esquenta”...
―Foi um prazer te conhecer rapaz. ― Uma mão grande estava esticada em minha direção, me fazendo despertar.
―Igualmente, Comandante.
―Por favor, me chame de Fúlvio.
―Igualmente, Fúlvio.
―Como se chama seu livro mesmo? Eu gosto muito de romances policiais.
― Violeta. Eu devo ter uma cópia comigo. Eu lhe dou uma com o maior prazer. O primo pode entrega-la para o senhor.
―Eu ficarei muito grato. Mas faço questão de comprar uma cópia.
―E eu ficarei muito feliz em dedica-la ao senhor.
―Por favor, me chame de “você”.
O senhor simpático virou as costas e eu fiquei de pé. Fazendo cara de paisagem até que ele sumisse da minha vista.
Meu sorriso desapareceu. Meu suor gelou. O ar dos meus pulmões estava quente como fogo e eu o expeli pelas narinas como se fosse um dragão que tinha acabado de acordar e estava preparado pra destruir algumas vilas. Sem dizer nenhuma palavra eu comecei a caminhar rápido sem direção, até a saída do parque. Eu não queria chorar, eu não podia chorar. Eu não poderia dar escândalo, eu não queria dar escândalo. Caminhava levemente mais rápido do que de costume, olhando para o chão e eventualmente para os lados. Greg me seguia, acho que ele se tocou que se por acaso tentasse falar comigo eu não responderia, se tentasse me segurar eu escaparia, se ele tentasse andar mais rápido eu correria. Então para manter as aparências ele apenas me seguiu.
Quando chegamos em casa eu não aguentei. Queria apenas me trancar no meu quarto. Mas dentro das paredes da nossa casa, Greg estava livre para correr. Ele me alcançou no meio da escadaria. Abraçou-me forte. Eu queria dar um soco nele. Empurrar ele da escada e com sorte ele iria se quebrar todo e me deixar em paz. Mas eu apenas canalizei toda a minha raiva em um choro. 
Sentei em um degrau da escada, Greg sentou ao meu lado e colocou uma mão no meu joelho. Eu não tinha forças para nada. Ficamos nessa posição por quase uma hora até minha cabeça ficar clara o suficiente:
―Primo? Sério Gregório?
―Desculpa, foi o que passou pela minha cabeça.
―Você poderia ter me chamado de mil coisas diferente, mas primo?
―O Comandante Esteves é um senhor mais velho, ele nunca saiu daqui e ele é quase como um padrinho meu na corporação. Eu não poderia ter te apresentado como meu namorado. Ele poderia...
―Primeiro: eu nunca pedi pra você me apresentar como seu namorado. Você poderia ter me apresentado como colega de apartamento, dizer que eu alugo um quarto na sua casa, amigo, conhecido, mas primo? Primo é foda, Greg. Primo é como a gente apresenta o namorado pra professora no colégio.  E segundo: o que ele poderia fazer com você? Você é concursado, competente, fez mais horas extra que qualquer um naquele lugar.
―Eu sei, mas...
―Greg, eu não estou pedindo pra você sair do armário. Só estou pedindo pra você não me empurrar pra dentro dele, ok?
―Eu não estou no armário, eu só não gosto de expor minha vida íntima.
―Então não me transforma no seu primo, porra!
Eu achei que ele iria sumir. Ele estava vermelho e envergonhado. Estava quase chorando. Eu não aguentei, comecei a chorar junto com ele e o abracei.
―Eu não quero que você divida nada comigo no parque, ou que andemos de mãos dadas na rua. Eu só quero que quando estiver junto, pelo menos na sua cabeça, eu seja o seu homem.
Enxuguei uma lágrima dele. E ele me beijou. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Capítulo 5 "Jogue-me/Toque-me"


It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss
It was only a kiss.

Tocava uma música alta quando cheguei à casa do Greg. Mais uma vez Mr. Brightside do The Killers tocava no ultimo volume do aparelho de som da sala, enquanto uma Peggy levemente alcoolizada estava deitada no sofá. Com um litro de tequila aberto sobre a mesa de centro acompanhado de um prato com fatias de limão e um saleiro. A vassoura deveria estar parada há algumas horas, encostada ao lado da escada. Peggy estava cantando junto com o vocalista tão entusiasmada que não percebeu quando entramos pelo hall, só se dando conta quando Greg deu um tapa em seu pé derrubando seu sapato de salto alto. Automaticamente ela se levantou, deu uma encarada em nós dois juntos, por alguns segundos até computar toda situação. Depois nos abraçou e gritou:

— Parabéns pela trepada!
Greg a afastou como se soubesse das armações de Ms. Cindernell. Deu uma risada de cumplicidade com a amiga, como se tudo tivesse sido combinado. Lógico que não havia sido. Pelo menos eu acho. E se tiver sido, eu não ficaria chocado.
— Sua porra louca! Bebendo no meu sofá de novo?
— Eu acabei de tirar a poeira da sala e você ainda reclama! Theodoro, cala a boca dele com a sua pra ver se essa donzela para de reclamar por obséquio!
— Mais tarde eu faço isso. — respondi dando risada.
— Amanhã eu não abro o bar, vou à cidade buscar bebidas para os drinks. Você vai querer alguma coisa?
— Me traz mais um litro de Gin? Te pago quando receber meu salário.
— Certo, vou aproveitar e cobrar por mais um litro de tequila, que te trouxe da ultima vez e você não pagou.
— Você bebeu praticamente sozinha.
— É o mínimo que eu poderia fazer por você. E pro Téo? Algum pedido pro papai Noel alcoólico?
— Eu to bem.
— Sei... Bem, eu vou deixar vocês dois sozinhos pra dor-mir...
Ela saiu pela porta falando “Dormir” cada vez mais baixo e devagar.

Greg se sentou no sofá e tomou uma dose de tequila. Meio perdido na situação eu imitei o gesto, sentei ao lado dele e tomei uma dose de tequila. Pra minha surpresa, Greg se deitou e colocou a cabeça no meu colo. Me olhou com uma cara de “Posso?” eu apenas sorri e coloquei a mão e afaguei o cabelo dele.
O Cabelo dele era fino e começava a ralear. Ele ficaria calvo ainda jovem acho eu... Na minha vida apenas duas pessoas deitaram no meu colo e deixaram que eu afagasse seus cabelos. Greg e Giordano, mas o cabelo do Gio... O cabelo do Gio...
Por alguns segundos eu me perdi pensando em Gio, mas foi um lampejo. Quando senti a mão quente de Greg sobre meu joelho um calor me subiu no peito e eu pensei “É agora”. Ele vai abrir minhas pernas colocar a cabeça entre meus joelhos. Mas... Foi um alarme falso. Ele só se aconchegou. No Final das contas nós dormimos mesmo... No sofá, vendo filme, bêbados de tequila.

Nos dias que se seguiram eu e Greg ficamos cada vez mais próximos. Greg não tinha mais nenhum receio de me tocar ou me abraçar. No primeiro dia, ele me abraçou na cintura e me beijou enquanto eu lavava louça.
Reparei que ele também procurava chegar mais cedo em casa, procurava ficar mais tempo junto comigo. Levava filmes pra assistirmos junto, pegava minhas notas e relia. Para ele tudo estava ótimo. No primeiro momento eu achava que ele falava isso pra me agradar, depois eu me toquei que ele não era uma mente muito crítica. Principalmente quando ele me disse que sempre achou que “de novo” se escrevia junto.
No Terceiro dia, nós começamos a dormir juntos. Um dia no quarto dele, outro no meu. Nossos amassos eram até quentes, mas nunca chegávamos as vias de fato. Que tipo de jogo é esse Gregório? Eu to aqui, to disponível e tals... Eu já havia decidido seguir o tempo dele. Mas pelo visto o tempo dele comigo era muito diferente. Eu tentei conversar com Peggy sobre isso, mas depois da nossa ultima conversa, eu achei melhor não buscar comparar minha relação com o Greg com a dele com outras pessoas. Ele queria estar comigo, por hora isso me bastava. Por hora.

No final de semana seguinte ele fez uma proposta descente que me deixou assustado:
— Quer jantar comigo na cidade?
— Claro! A Peggy também vem? — Perguntei na inocência, afinal, nós dormíamos na mesma cama, mas ele nunca tentava tirar minhas calças.
— Não, eu quero... Jantar... Com você... Num restaurante chamado Skykeeper e... Tem que fazer uma reserva lá... Mas como eu trabalhei de segurança por um tempo lá aí eles me deram uma reserva e...
Ele estava vermelho, e inseguro, acho que eu era o primeiro cara que ele convidava para sair, ele queria ir a público comigo. Isso é bem legal... Eu acho:
— Calma. Nós jantaremos juntos e vamos nos divertir.
O que era claro pra mim e que Greg não era visto com outras pessoas na cidade. Um convite para jantar é algo romântico a primeira vista, mas por algum motivo eu sabia que não iria acontecer nenhuma demonstração de afeto nesse jantar. Eu queria dizer pra ele que eu aceitaria isso tranquilamente, mas na hora eu disse:
— E fica tranquilo que eu não vou fazer nada que te deixe constrangido ou te envergonhe na frente de estranhos.
Reparei que Greg ficou vermelho e parecia se encolher e se esconder em alguma fresta do assoalho. Ele se sentou no sofá e abraçou uma almofada vermelha. O que o fez parecer ainda mais envergonhado. Eu me senti o pior de todos os seres humanos da terra. Porque essa impaciência? O menino tinha entrado em parafuso quando você deu um selinho na cama dele. Você fez o primeiro movimento e depois foi arrumar, agora ele te chama pra jantar e você espera um pedido de casamento? Ou que ele seja todo namoradinho? Calma, vamos acalmar o garoto antes que ele fuja. Eu precisava esclarecer isso, mas ele começou a falar com uma voz acanhada e num tom de desculpas:
— Eu... Não é isso... É que eu... Nunca convidei ninguém antes e... É a primeira que eu faço isso por alguém que eu...
Ele ficou muito vermelho e não conseguiu terminar de falar. Eu tinha te acalma-lo.

— Eu sei... Me desculpa... Eu fico na defensiva muito fácil. Olha, o que eu quero dizer é que eu vou respeitar seu tempo, não vou te pressionar a nada e quero que acima de tudo você se divirta ok.
— Certo, mas eu que fiz o convite... Eu que quero que você se divirta...
— Eu vou me divertir — Disse com um sorriso. Greg me beijou no rosto. Acho que dei a entender que só a companhia dele me bastava para ter uma noite boa. Eu abaixei minhas expectativas.

Naquela noite, coloquei minha melhor roupa disponível em Santa Clara. Me dei o luxo de comprar um blazer até. Queria estar no meu melhor. Perto da hora combinada, Greg parou com um fusca azul na porta da casa e buzinou. Eu me encantei pelo carro. Estava praticamente novo. Tinha o cheiro do perfume dele. Assim que entrei no carro esperava um beijo. Mas Greg me deu apenas um sorriso. Fiquei desapontado, mas ainda sim sorri.
No restaurante tivemos que esperar nossa mesa vagar no bar. Greg parecia desconfortável. Analisava tudo, estudava o movimento das pessoas. Parecia realmente tenso:
— Você não quer beber alguma coisa?
— Você acha muito feio se eu pedir uma cerveja?
— Duas cervejas. — pedi ao garçom.
— Só tem chopp.
— Desce dois — Disse imitando a voz do Evandro Mesquita. O Garçom deu uma risadinha, Greg não entendeu a piada.

Tínhamos acabado de terminar nosso chopp quando nossa mesa ficou pronta. De fato, a vista era linda. Dava pra ver toda a cidade nova. A luz dos prédios refletia no mar. As ondas batiam nas pedras. Era muito lindo. Santa Clara ficava no litoral, mas não tinha praias. Era praticamente tudo rochedos ou paredões de pedra. Isso não importava nem um pouco, afinal, a cidade era fantástica.
— A vista é linda, mas não melhor que a vista do mirante.
— Você teve tempo de apreciar a vista do mirante? — Ironizou.
— A que eu consegui apreciar era muito melhor que essa. — Estiquei a mão com intenção se segurar a dele. Ele em um susto tirou a mão de cima da mesa e colocou sobre o colo. No instante seguinte o garçom chegou.

Ele parecia deslocado no restaurante. Confesso que depois dele ter se desviado de um gesto de afeição meu, eu perdi um pouco da minha capacidade de compreensão. Mas no fim das contar eu prometi que iria me divertir. Ele olhava para os lados sem saber o que fazer e o que falar. Eu apenas olhava, comia e sorria. Não era o mesmo Greg que eu conheci naquele quarto. Que eu beijei naquele quarto. A uma certa altura ele tentou puxar assunto:
— Você jogou o novo Fifa?
— Não gosto de jogo de futebol. Não gosto de jogos de esporte em geral.
— Mas de Need você gosta né?
— Só dos antigos. Prefiro jogar Mario Kart.
— Nossa difícil você hein.
— Prefiro falar a verdade. Sabe, não gosto de criar situações que deixem outra pessoa desconfortável, portanto eu prefiro ser direto e falar a verdade. — Ok. Eu sou um ogro, mas prefiro ser direto — Me desculpa pela grosseria. Mas imagina a cena, você me chamando pra jogar Fifa eu tendo que fingir que estou gostando. Eu não sou assim.
— É isso que eu gosto em você, você é natural, sincero. Eu queria ser mais assim.
Eu apenas sorri. Nossa comida tinha acabado de chegar, eu não estava com muita fome. Minha mãe sempre me disse pra comer antes de ir a um restaurante. Mas Greg estava visivelmente faminto. Então deixei ele comer sem fazer muitas perguntas. Ele acabou com um prato de macarrão em menos de 5 minutos, e ainda comeu todo o pão da cestinha sozinho. Ele comia com gosto, como quem está mesmo com fome. Achei fofo.
O Restaurante estava quase vazio. Havia alguns casais em mesas distantes, os garçons só se aproximavam das mesas quando chamados. Decidi que poderia tentar perguntas mais íntimas:
— Me fala, você já namorou alguém a sério?
— Bom pra ser sincero, eu tive uns romances quando era mais novo, mas nada sério. E depois da morte dos meus pais eu tentei não me aproximar de ninguém.
— Entendo.
— E você. Você tem jeito de quem só namora a sério.
Tive que conter uma risada.
— Não... Eu... Bem. Eu tive um namorado sério na faculdade. Ele se chamava Giordano. Era filho de um imigrante italiano e estudava comigo.
— E porque vocês terminaram?
— Porque eu sou um grande conquistador.
Foi a vez dele conter a risada.
— Na verdade o pai dele o mandou de volta pra Itália. E achamos melhor rompermos antes que ficasse complicado demais.
Percebi que o olhar dele ficou distante. Será que passou pela cabeça dele que um dia eu iria embora de Santa Clara. Que por mais que ele me achasse especial, eu também iria embora um dia. Isso talvez explique muita coisa.
— Mas sabe. Se ele tivesse se mudado pra uma cidadezinha no interior ou no litoral, talvez nós estivéssemos juntos. Afinal, eu sou um escritor, posso trabalhar em qualquer lugar.
Ele sorriu.
Dessa vez foi minha vez de ficar em silêncio...

— Eu vou voltar pra Itália — Aqueles olhos negros olhavam dentro de mim — Meu pai precisa de ajuda com os negócios lá.
— Porque ele não manda um dos seus irmãos. Aquele que é advogado não seria melhor pra isso? — Os olhos verdes começaram a ficar mareados.
— Não é tão simples assim — Ele desviou o olhar.
— Quando você volta? — Não se pergunta algo que já se sabe.
— Talvez eu não volte. — Os olhos negros olharam para baixo.
— Por quê? — Lágrimas começaram a escorrer.
— Eu... Eu vou estudar lá e...
— Eu entendo...
— Você está com raiva de mim?
— Não, eu... Eu tenho umas economias salvas, eu poderia entrar como turista... Arrumar um emprego e...
— Não... Sem planos mirabolantes... Eu não quero que você faça isso por mim...
— Mas... Mas... Por quê?
Os olhos negros estavam vermelhos e cheios de lágrimas, olharam para mim novamente... “Porque eu te amo”.

— Uma moeda pelos seus pensamentos.
Os olhos que me fitavam agora não eram negros, nem estavam cheios de lágrimas, Eu nunca consegui identificar a cor dos olhos dele. Hoje estavam particularmente azuis, com um ar de curiosidade.
— Não eu estava lembrando uma coisa que aconteceu comigo séculos atrás. — Olhei para os lados para verificar se não tinha ninguém por perto. — Sabe, se você não se importa, eu vou considerar o Mirante como sendo nosso primeiro beijo.
Ele ficou vermelho, com cara de assustado. Quase se engasgou. Olhou para os lados e viu que os demais casais estavam mais interessados em suas refeições do que em nós. Ele abaixou a cabeça e me disse como se fosse uma confidência.
— Eu também.
Parecíamos duas crianças escondendo segredos dos adultos. Eu não estava contente com essa situação, mas se essa era a maneira de fazer o Greg tocar nesses assuntos enquanto estávamos em público:
— Sabe... A maioria dos momentos importantes para mim, os momentos que eu sempre me lembro... Eles aconteceram em lugares com vistas incríveis sabe. E nosso beijo vai ser um momento que eu vou sempre lembrar.
— É... Eu... Também... Podemos discutir isso lá foda? Digo... Fora?
Minha expressão não deve ter sido das melhores. Eu relaxei todos os músculos do rosto, dei uma bufada involuntária, encostei-me à cadeira e pedi outra taça de vinho ao garçom. Greg também pareceu constrangido. Ele voltou a sua posição original de olhar para os lados, comer e tossir.
Eu deveria me desculpar? Eu fiz alguma coisa errada? Era uma conversa particular e inocente sobre nosso primeiro beijo. Eu não tenho nada do que me envergonhar. Nem ele tinha. Alguém tem que por isso na cabeça dele! Mesmo constrangido ele era lindo. Mas... Eu prefiro aquele Greg que dava risada alta e não se importava com nada que eu conheci sobre o efeito de algumas cervejas no quarto dele:
— Vamos pagar e ir pra casa.
— Você não vai tomar mais vinho?
— Tem uma garrafa de vinho de mesa na geladeira. Pretendo mata-la antes de dormir.
— Te aborreci não foi?
— Não é isso... Podemos discutir isso lá fora?
Ele sacou a ironia. Saímos do restaurante em direção ao elevador. Estávamos em um corredor vazio. Ele deu uma bufada, bateu de leve no meu ombro e disse:
— Isso não está certo, vem comigo.
Segui pelo corredor até uma escadaria de emergência. Já estávamos no ultimo andar, mas ainda havia mais dois lances de escada para o que parecia uma sala de manutenção. Greg sem cerimônias abriu uma caixa de força e tirou uma pequena chave, com a qual abriu uma porta que dava para o terraço do prédio.
Aqui sim. A vista mais linda de Santa Clara. Trezentos e sessenta graus de horizonte. A cidade inteira brilhando abaixo de nós. Um vento gelado soprava do mar. Ondas batiam nas pedras. Algumas buzinas e gritos eram ouvidos lá embaixo, mas provavelmente ninguém conseguiria nos ouvir:
Greg se sentou em um duto de ar e me pediu pra sentar ao seu lado. Estiquei meu blazer sobre o duto e me sentei sobre ele.
— Eu quero te pedir desculpas pelo meu comportamento no jantar. Eu acho que ainda não estou pronto.
— Eu compreendo. Não gosto dessa situação. Mas eu compreendo.
— Nosso beijo no mirante foi incrível. Eu te acho um cara incrível. Mas... Eu tenho medo de não corresponder a suas expectativas.
— E quais expectativas você acha que eu tenho?
— Eu não sei. Talvez alguém que seja mais inteligente que eu, que fale melhor do que eu, que tenha melhores modos, uma melhor aparência, que seja mais cavalheiro do que eu sou...
Ele não poderia estar mais errado.
— Eu gosto de você Gregório. Eu só não quero te forçar a nada. Eu não quero que você fique desconfortável toda a vez que eu te beijar ou que você evite qualquer gesto de carinho que eu demonstre.
— Sobre isso... Mais uma vez eu peço desculpas. Eu... Eu não gosto de parecer íntimo de ninguém... Sabe...
Não, não sei. O que será que ele quis dizer com isso? Ele quer ser sempre o garanhão? Quer ser o machão da vizinhança? Eu sou só a putinha de dentro de casa? A próxima fala dele iria decidir se eu me levantaria dali e iria procurar um hotel ou se meu relacionamento com o Greg iria continuar.
— O que eu quero dizer é que... Eu não sei ter intimidade com ninguém.
— Quando estamos sozinhos em casa você consegue. Você me abraça, me beija, Nós estamos dormindo juntos a quase uma semana. Isso é intimidade.
— Eu sei. Mas eu não sei como fazer isso fora da nossa privacidade.
— Greg, deixa eu te perguntar uma coisa. Quem além da Peggy sabe que você também dorme com homens?
Essa pergunta foi à queima roupa. Tinha que ser. Afinal. Eu precisava saber o quão poderia me expor.
— A Peggy sabe. As amigas mais próximas a ela sabem. Até alguns fregueses mais antigos do Peggy’s sabem. Meus pais morreram sem saber. O que eu nunca vou saber ao certo se foi bom ou ruim. Eu não falo da minha vida pessoal no trabalho. E a Peggy é minha única amiga próxima então...
— Entendo. Desculpa insistir nisso... Mas... Se por acaso nossa relação prosseguir...
— Me desculpe, eu não saberia como eu iria agir. Como eu te disse é a primeira vez que eu amo alguém.

Meu mundo deu uma leve parada. Gregório acabou de dizer que me ama? Eu fiquei em silêncio encarando-o para ver se ele se tocava e realizava o que tinha acabado de dizer. Meu deus, como uma pessoa por ser tão tapada a ponto de se declarar e nem perceber:
— Greg, você acabou de dizer que me ama?
— Eu... Eu acho que sim.
— Você... Realmente?
— Eu acho que sim.
A situação em si era cômica. Ele estava vermelho como uma pimenta. Apertava os dedos com força e transpirava:
— Então fala. Alto. Ninguém vai escutar.
— Eu te amo. Theodoro. Eu te amo.
— Mais alto.
Ele se levantou e gritou “eu te amo” no alto do terraço. Eu achei precipitado, Nós nos conhecíamos a pouco mais de um mês. Nosso primeiro beijo foi a algumas semanas. Como ele pode ter certeza de que me ama?
Ele estava na minha frente agora. Me encarava com um sorriso. E eu entendi. Ele queria uma resposta à declaração dele. Eu queria apenas poder agradecer, mas isso não parecia certo. Então optei pela melhor saída. Eu o beijei. Ele pareceu bem satisfeito com isso, porque nos segundos que se passaram, nossos beijos foram ficando aca vez mais quente.
Nós estávamos deitados sobre nossos casacos no chão do terraço. Sem esforço nos livramos dos sapatos e meias. Greg me segurou pelos ombros e jogou o corpo dele por cima do meu. Olhando nos meus olhos ele abriu minha camisa e eu pensei: “Está acontecendo”.  Greg tirou a camiseta dele que por um descuido, foi levada pelo vento e ficou presa em um para-raios. Ele se deitou sobre mim. Beijava meu pescoço, e descia para a barriga, me abraçava forte. Eu ficava olhando aquela camiseta presa, tremulando como uma bandeira. A barba dele me fazia cócegas, mas ao mesmo tempo aquecia meu corpo gelado. Ele levou a mão ao meu cinto. É... Isso estava acontecendo. Ajudei-o a tirar minhas calças e as dele. Tomamos o cuidado e usar nossos sapatos como peso dessa vez e evitamos que outras peças de roupas nossas fossem parar nos céus de Santa Clara. Nós nos sentamos um de frente para o outro. Trançamos nossas pernas e nos abraçamos e beijamos de forma a nos mantermos aquecidos. Eu senti Greg me cutucando, e ele também deve ter me sentido. Porque ele deu o sorriso mais lindo do mundo olhando para mim e disse:
— Quer fazer isso?
Eu apenas sorri e disse que sim. Livramo-nos das ultimas peças de roupas. Estávamos os dois nus sobre o terraço do Skykeeper. Na maior parte do tempo. Greg me olhava nos olhos, com um sorriso lindo e eu não conseguia desviar o olhar. Eu me sentei no colo dele e ficávamos nos olhando, Eu me senti quente por dentro, era a mesma sensação do beijo roubado na cama dele, somada a sensação de nos beijarmos na chuva no mirante, multiplicada por mil.
Eu o abracei, dei um beijo no seu pescoço, e ficamos assim até terminarmos. Após termos nossa primeira vez, eu e Greg ainda ficamos umas duas ou três horas em silêncio, nus, deitados sobre nossos casacos, olhando um para o outro. Foi um momento digno de ser lembrado.
Depois do silêncio. Greg me olhou nos olhos e disse “Eu te amo”. Dessa vez apenas retribuí com um sorriso. Ele se levantou e começou a se vestir. Eu coloquei meu blazer e tentei localizar minha cueca, mas acabei desistindo e coloquei as calças. Coloquei os sapatos sem as meias, que acabei enfiando no bolso. Greg voltava com a jaqueta fechada, sem camiseta. Parecia que tínhamos voltado da guerra. Se Peggy nos visse agora, ela realmente Gritaria “Parabéns pela trepada”.
Eu olhei para a vista de novo. Era um momento para recordar realmente. Greg me abraçou:
— E então… Como… Foi?
— Romântico.
Ele sorriu e me beijou no rosto.
No caminho para casa eu comecei a processar tudo que havia acontecido desde nosso primeiro beijo. “Me desculpe, eu não saberia como eu iria agir. Como eu te disse é a primeira vez que eu amo alguém.”
Eu acho que vou ter que descobrir como você vai agir. Porque eu não tinha certeza se o amava ainda. Mas de uma coisa eu tinha certeza. Eu queria ficar muito, mas muito tempo com ele.


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Galera eu gostaria muito que vocês lessem esse capítulo porque foi de longe o que mais me deu trabalho.
Qualquer erro de ortografia por favor me avisem eu não revisei direito antes de postar.
Love You Guys.
See Yaa. 

2013 chegando e Violeta voltando com os 2 pés no peito.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Capítulo 4 "Romance" Parte 2 Final.

Meu beijo com Gregório durou pouco tempo, mas para mim, foi como se séculos tivessem se passado. Tudo estava muito perfeito. Eu, ele de pijama, nós dois quase bêbados de cerveja, sentados na cama dele. Tudo caminhava para uma noite maravilhosa, mas foi quando eu senti os músculos do rosto dele ficarem tensos. De uma maneira delicada e educada ele me afastou e se levantou. Saiu da cama pelo lado oposto de onde eu estava dando a entender que estava cansado ou indisposto ou até mesmo desconfortável com a situação. No fundo eu acho que ele estava os três...

Sem reação eu caminhei para a porta do quarto e sem saber o que fazer apenas disse:

— Desculpa... Eu... Vou deixar você dormir...

Saí rápido e a passos largos sem olhar para trás, entrei no meu quarto, num misto de vergonha e arrependimento, pulei na cama e lá fiquei revirando até conseguir pegar no sono, o que demorou pois a ultima vez que olhei no relógio, já eram mais de 5 horas. 

No dia seguinte, acordei com o sol nos meus olhos, morto e com uma ressaca moral terrível, o relógio acusava quase meio dia. Desci as escadas de cueca, sem sequer pensar na possibilidade do Greg estar lá embaixo. Eu precisava com urgência de um cigarro. 


Roubei um do Gregório que estava na mesinha da sala mesmo e fui para o quintal fumar. Não era da marca que eu costumo fumar, mas serviu ao propósito de me acalmar:

 Ô lá em casa! 
Essa cantada me fez voltar a realidade. Sua autora, Peônia Cindernell estava recolhendo as garrafas deixadas no pátio dos fundos do Peggy's que por acaso fazia divisa com os fundos da casa do Greg. Só então a ficha de que eu estava de cueca caiu, eu torci para que a mureta que separava ambos os quintais tivesse me ocultado da cintura para baixo:
 Almoça comigo?  Gritou Peggy.
 Só nós dois?
 Pode ser.
 Vou colocar uma roupa e vou até aí. 



O Peggy's ainda estava fechado, mas uma das mesas estava posta com uma toalha, pratos e uma apetitosa travessa de escondidinho carne moída com batata e outra com uma salada verde:
 Eu curto cozinhar, mas detesto comer sozinha. O Greg vai trabalhar o dia todo hoje.
Respirei fundo:
 Peggy, sobre ontem a noite...
 Uuuuuuuuuiii! Conta, conta, conta!
— Eu acho que fiz merda.
— Discorra.

Contei a noite anterior com riqueza de detalhes. Dos planos, medos, intenções e do desfecho frustrante:
—  Sa-fa-di-nho.
— Meu sério, foi muito estranho e agora ele vai querer colocar uma cerca elétrica ao redor dele. Achei um milagre minhas coisas não estarem amontoadas na porta hoje cedo. Eu com certeza ultrapassei os limites.
— Não, não ultrapassou não. Eu conheço o Gregório, Se ele fez isso provavelmente é porque ele também está tão confuso quanto você.
— Por acaso eu sou o primeiro homem dele?
Peggy riu como se eu tivesse dito a coisa mais idiota do mundo:
— O que foi?
— Lembra quanto eu te apresentei o Gregório?
— Se lembro? Eu queria me esconder debaixo do banco com aquela encarada que ele me deu.
— Aquilo se chama "Quem come".
— Oi?
— "Quem come". Funciona assim, nós dois encaramos uma pessoa, e aquele que receber mais atenção é sinal de que a pessoa prefere morenos ou ruivas. 
— Brincadeira idiota.
— Nós brincávamos disso quando tínhamos sei lá... Quinze anos. O que eu quero que você entenda é que não é fácil ser uma criança da Cidade Velha. 
— Agora discorre você rapariga.
— Bom. Vila Regina e Novo Horizonte têm várias praias. Mas só isso. Santa Clara tem as melhores escolas, hospital, fábricas, centro comercial desenvolvido e uma rede hoteleira descente. A cidade é dividida entre a Cidade Nova, onde tem tudo isso, e a Cidade Velha, que é esse charme que você vê. Cheia de passeios praças, parques Algumas cantinas e o Peggy's. Mas na maioria quem mora aqui na cidade velha são casais de Idosos ou aposentados. Quando você cresce na cidade velha, você acaba tendo pouco contato com diferentes, mesmo morando numa cidade turística. Os turistas frequentam mesmo é a Cidade Nova, onde ficam as baladas, o Gran Hotel e os terminais rodoviários para fora da cidade. 
"Mas isso não quer dizer que as crianças da cidade velha não amadurecem ou são caipiras. Nós crescemos diferente. Eu e Greg tinhamos um pequeno grupo de pessoas escolhidas a dedo, todos moravam nas proximidades da cidade velha. Cada passeio, cada parque, cada praça, até mesmo os morros e a zona rural eram nossos quintais. E como tínhamos o melhor espaço, aprendemos a ser seletivos. Gostávamos da melhor música, das melhores comidas, das melhores bebidas e até mesmo as melhores pessoas na hora de nos apaixonarmos." 
"De fato, as coisas poderiam ser rápidas ou devagar, mas eram feitas com as pessoas certas, eram preciosas, aconteciam no seu tempo. Eu nunca precisei ir numa festa e beijar 20 garotos pra impressionar alguma idiota na escola. A cidade velha era nosso paraíso. Criamos um santuário onde aqueles que queriam se sentir aceitos e aceitavam bem os outros conseguiam viver em paz. No meio disso tudo, Greg era o garoto mais quieto e na dele. Todos achavam que ele era pelo menos cinco anos mais velho do que ele realmente era, afinal não é fácil ser o mais alto e ter barba desde os quatorze anos. Ele era bem quieto e calado. Mas era parceiro. O problema do Gregório é que ele se envolve com as pessoas muito facilmente e de uma maneira muito profunda e muito rápida. De fato pra você transar com ele basta apenas algumas horas de conversa e se mostrar interessado nisso. Eu vi ele ir pra cama a primeira vez com quinze anos numa festinha com uma garota que só queria se divertir. Mas depois ele ficou magoado quando ela desapareceu. No final das contas, ele disse que só queria 'passar o tempo'. No ano seguinte ele foi pra cama com um turista de dezenove anos porque queria 'curtir a experiência' mas eu sei que ele ficou muito chateado quando o menino foi embora."
— Então ele é do tipo que se apega fácil as pessoas?
— Exato.
Um sentimento de culpa surgiu em mim. Eu iria embora de Santa Clara assim que algum lampejo de criatividade surgisse em mim, assim que eu tivesse algo para mostrar pro meu editor e finalmente pudesse respirar. Eu nunca tinha parado pra pensar o que faria com Greg ou Peggy depois disso. Provavelmente visitá-los nas férias ou coisa do tipo. 
— E porque você acha que dessa vez ele não quis se envolver comigo?
— Bom, desde que os pais dele morreram, ele mudou um pouco o jeito dele de ser. Não raramente eu encontro vestígios de outras pessoas visitando o quarto dele, mas, quando eu pergunto, ele nega ou desconversa. Ele afasta pessoas estranhas e pra ser sincera eu não creio que ele saiba o nome de um terço das pessoas com quem ele vai pra cama.
— Então ele não fica com ninguém por receio das pessoas se afastarem?
— Não sei se é receio, medo das pessoas irem embora, só sei que não pode ser culpa sua.
— O Fato Peggy, é que eu beijei ele e ele se afastou. Ele não deve ter gostado ou deve estar com raiva.
— Ele só deve estar pensando.
— Em quê?
— Téo, Greg é uma pessoa ótima, mas é muito solitário. Ele vive sozinho a muito tempo e dificilmente confia em alguém. Mas é só conversar com ele que você nota que no fundo Greg é só uma pessoa extremamente carente de afeto.

Carente de afeto. Mais uma vez, Peggy colocou Greg como meu igual. Nós dois, carentes, solitários, cada um a sua maneira, desejando apenas estar com alguém que nos acolha. O eterno problema das pessoas carentes é achar que qualquer rejeição é sua culpa. Esquecer que existem duas pessoas em uma relação, cada uma com suas dinâmicas diferentes, problemas diferentes. Eu queria entender o problema do Greg, eu queria ajuda-lo a resolver esse problema, eu queria estar com ele.
— Onde ele estaria pensando Peggy?
— Quando alguma coisa aflige muito o Greg, ele vai até o velho mirante abandonado no morro de Santa Clara. Ele senta no mirante e fica olhando a cidade por horas. Provavelmente ele vai pra lá depois do trabalho. 
— Onde é isso?
—  Segue a avenida da cidade velha até a estrada que leva pra zona rural, você vai encontrar uma trilha ao lado direito da estrada que sobe o morro. É só seguir.
— Vou resolver isso agora.

Peguei minha vespa e segui o caminho indicado. Nunca havia me passado pela cabeça que Greg fosse bissexual, mas isso fazia bastante sentido pra mim. A maneira como ele me encarou, como ele me aceitou nos seus braços, como ele se abriu fácil comigo, como ele conversava animado comigo, como ele era quente e aconchegante. De fato. Ele era uma pessoa carente demais de afeto. Precisava daquele abraço e no que depender de mim, eu poderia fornecer bem mais do que um abraço. Eu jurei para mim mesmo que nunca magoaria o Greg, independente do que acontecesse de agora em diante. Afinal, eu estava realmente gostando dele.
Subi a trilha com o coração na boca. Ao mesmo tempo que uma chuva começava a cair. Por sorte eu tinha um guarda-chuva embaixo do banco da vespa. Eu não sabia da reação do dele. Ele podia ficar com raiva, me expulsar, pedir espaço, me achar grudento. Minha cabeça ordenava que eu recuasse, meu corpo só me impulsionavam para frente.
Cheguei no mirante e encontrei Greg sozinho lá olhando para o horizonte pensativo. Ele não me viu, subi até a plataforma de observação com calma, não queria assustá-lo. Só queria conversar:



— Gregório? — Chamei com a voz bem clara.
— Como você me achou aqui? Não, eu sei. Peggy te disse não é?
— Foi. Eu queria conversar com você sobre ontem a noite. Te pedir desculpas...
— Desculpas?
— Eu devo ter me excedido, eu só queria dizer que sinto muito.
— Não, você não tem do que se desculpar, eu... Eu que tinha que te pedir desculpas, fui um grosso, deveria ter conversado com você na hora pra evitar essa situação, mas na verdade eu sou um medroso.
— Não tenha medo, pode falar o que você está sentindo, eu vou entender.
— Eu gostei.
— Gostou?
— Eu gostei do seu beijo. Foi sincero, foi natural, gostei do seu corpo aconchegado no meu, gostei de você comigo naquela hora.
— Então Porque?
— Eu tenho medo. Eu não sei se quero estar próximo a alguém assim. Eu tenho medo de usar ou ser usado, tenho medo de tudo isso acabar.
— Greg, eu também gostei. —  Disse me aproximando — Você não precisa ter medo de me usar, pois eu quero isso, eu nunca me senti tão bem. Eu quero isso.
Coloquei minha mão em seu ombro e o apertei gentilmente, puxei ele para cima de mim e nos beijamos. A vista da cidade de Santa Clara era linda. Quando o mundo pode ver nossos lábios se tocando. A Barba do Greg fazia cócegas e me acariciava, me fazia sentir um calor no peito e a desejá-lo cada vez mais e mais. Nos beijamos por mais de meia hora. Sem ninguém para nos incomodar. Era como se eu estivesse com sede a muito tempo, e finalmente tomasse uma garrafa de água gelada.
O tempo seguia devagar, eu sentia o vento, a chuva, o cheiro da grama molhada, uma vertigem gostosa tomou conta do meu corpo. 
Quando nossos lábios se separaram, nos abraçamos e em silêncio, observamos as nuvens darem lugar a um sol poente lindo no horizonte.


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Galeres, esse capítulo foi praticamente reescrito por inteiro, por isso eu dei sangue e suor pra fazer, numa tacada, eu duas partes, Texto e fotos.
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Se achou algum errinho Desculpa aí, herrar é umano. 
Grande abraço pra todos vocês
Um Feliz Ano Novo 
e Capitulo 5 agora só em 2013.